|
Por Secretário César Bonamigo
O Curso Rio Branco, que freqüentei em sua
primeira edição, em 1998, pediu-me para escrever
sobre o que é ser diplomata. Tarefa difícil,
pois a mesma pergunta feita a diferentes diplomatas resultaria,
seguramente, em respostas diferentes, umas mais glamourosas,
outras menos, umas ressaltando as vantagens, outras as desvantagens,
e não seria diferente se a pergunta tratasse de outra
carreira qualquer. Em vez de falar de minhas impressões
pessoais, portanto, tentarei, na medida do possível,
reunir observações tidas como “senso comum”
entre diplomatas da minha geração.
Considero muito importante que o candidato ao Instituto Rio
Branco se informe sobre a realidade da carreira diplomática,
suas vantagens e desvantagens, e que dose suas expectativas
de acordo. Uma expectativa bem dosada não gera desencanto
nem frustração. A carreira oferece um pacote
de coisas boas (como a oportunidade de conhecer o mundo, de
atuar na área política e econômica, de
conhecer gente interessante etc.) e outras não tão
boas (uma certa dose de burocracia, de hierarquia e dificuldades
no equacionamento da vida familiar). Cabe ao candidato inferir
se esse pacote poderá ou não fazê-lo feliz.
O PAPEL DO DIPLOMATA
Para se compreender o papel do diplomata, vale recordar, inicialmente,
que as grandes diretrizes da política externa são
dadas pelo Presidente da República, eleito diretamente
pelo voto popular, e pelo Ministro das Relações
Exteriores, por ele designado. Os diplomatas são agentes
políticos do Governo, encarregados da implementação
dessa política externa. São também servidores
públicos, cuja função, como diz o nome,
é servir, tendo em conta sua especialização
nos temas e funções diplomáticos.
Como se sabe, é função da diplomacia
representar o Brasil perante a comunidade internacional. Por
um lado, nenhum diplomata foi eleito pelo povo para falar
em nome do Brasil. É importante ter em mente, portanto,
que a legitimidade de sua ação deriva da legitimidade
do Presidente da República, cujas orientações
ele deve seguir. Por outro lado, os governos se passam e o
corpo diplomático permanece, constituindo elemento
importante de continuidade da política externa brasileira.
É tarefa essencial do diplomata buscar identificar
o “interesse nacional”. Em negociações
internacionais, a diplomacia freqüentemente precisa arbitrar
entre interesses de diferentes setores da sociedade, não
raro divergentes, e ponderar entre objetivos econômicos,
políticos e estratégicos, com vistas a identificar
os interesses maiores do Estado brasileiro.
Se, no plano externo, o Ministério das Relações
Exteriores é a face do Brasil perante a comunidade
de Estados e Organizações Internacionais, no
plano interno, ele se relaciona com a Presidência da
República, os demais Ministérios e órgãos
da administração federal, o Congresso, o Poder
Judiciário, os Estados e Municípios da Federação
e, naturalmente, com a sociedade civil, por meio de Organizações
Não-Governamentais (ONGs), da Academia e de associações
patronais e trabalhistas, sempre tendo em vista a identificação
do interesse nacional.
O TRABALHO DO
DIPLOMATA
Tradicionalmente, as funções da diplomacia são
representar (o Estado brasileiro perante a comunidade internacional),
negociar (defender os interesses brasileiros junto a essa
comunidade) e informar (a Secretaria de Estado, em Brasília,
sobre os temas de interesse brasileiro no mundo). São
também funções da diplomacia brasileira
a defesa dos interesses dos cidadãos brasileiros no
exterior, o que é feito por meio da rede consular,
e a promoção de interesses do País no
exterior, tais como interesses econômico-comerciais,
culturais, científicos e tecnológicos, entre
outros.
No exercício dessas diferentes funções,
o trabalho do diplomata poderá ser, igualmente, muito
variado. Para começar, cerca de metade dos mil diplomatas
que integram o Serviço Exterior atua no Brasil, e a
outra metade nos Postos no exterior (Embaixadas, Missões,
Consulados e Vice-Consulados).
Em Brasília, o diplomata desempenha funções
nas áreas política, econômica e administrativa,
podendo cuidar de temas tão diversos quanto comércio
internacional, integração regional (Mercosul),
política bilateral (relacionamento do Brasil com outros
países e blocos), direitos humanos, meio ambiente ou
administração física e financeira do
Ministério. Poderá atuar, ainda, no Cerimonial
(organização dos encontros entre autoridades
brasileiras e estrangeiras, no Brasil e no exterior) ou no
relacionamento do Ministério com a sociedade (imprensa,
Congresso, Estados e municípios, Academia, etc.).
No exterior, também, o trabalho dependerá do
Posto em questão. As Embaixadas são representações
do Estado brasileiro junto aos outros Estados, situadas sempre
nas capitais, e desempenham as funções tradicionais
da diplomacia (representar, negociar, informar), além
de promoverem o Brasil junto a esses Estados. Os Consulados,
Vice-Consulados e setores consulares de Embaixadas podem situar-se
na capital do país ou em outra cidade onde haja uma
comunidade brasileira expressiva. O trabalho nesses Postos
é orientado à defesa dos interesses dos cidadãos
brasileiros no exterior. Nos Postos multilaterais (ONU, OMC,
FAO, UNESCO, UNICEF, OEA etc.), que podem ter natureza política,
econômica ou estratégica, o trabalho envolve,
normalmente, a representação e a negociação
dos interesses nacionais.
O INGRESSO NA
CARREIRA
A carreira diplomática se inicia, necessariamente,
com a aprovação no concurso do Instituto Rio
Branco (Informações sobre o concurso podem ser
obtidas no site http://www2.mre.gov.br/irbr/index.htm).
Para isso, só conta a competência – e,
talvez, a sorte – do candidato. Indicações
políticas não ajudam.
AS REMOÇÕES
Após os dois anos de formação no IRBr
, o diplomata trabalhará em Brasília por pelo
menos um ano . Depois, iniciam-se ciclos de mudança
para o exterior e retornos a Brasília. Normalmente,
o diplomata vai para o exterior, onde fica três anos
em um Posto, mais três anos em outro Posto, e retorna
a Brasília, onde fica alguns anos, até o início
de novo ciclo. Mas há espaço para flexibilidades.
O diplomata poderá sair para fazer um Posto apenas,
ou fazer três Postos seguidos antes de retornar a Brasília.
Isso dependerá da conveniência pessoal de cada
um. Ao final da carreira, o diplomata terá passado
vários anos no exterior e vários no Brasil,
e essa proporção dependerá essencialmente
das escolhas feitas pelo próprio diplomata.
Para evitar que alguns diplomatas fiquem sempre nos “melhores
Postos” – um critério, aliás, muito
relativo – e outros em Postos menos privilegiados, os
Postos no exterior estão divididos em três categorias,
A, B e C, obedecendo a critérios não apenas
de qualidade de vida, mas também geográficos,
e é seguido um sistema de rodízio: após
fazer um Posto C, por exemplo, o diplomata terá direito
a fazer um Posto A, e após fazer um Posto A, terá
que fazer um Posto B ou C.
AS PROMOÇÕES
Ao tomar posse no Serviço Exterior, o candidato aprovado
no concurso torna-se Terceiro Secretário. É
o primeiro degrau de uma escalada de promoções
que inclui, ainda, Segundo Secretário, Primeiro Secretário,
Conselheiro, Ministro de Segunda Classe (costuma-se dizer
apenas “Ministro”) e Ministro de Primeira Classe
(costuma-se dizer apenas “Embaixador” ), nessa
ordem. Exceto pela primeira promoção, de Terceiro
para Segundo Secretário, que se dá por tempo
(quinze Terceiros Secretários são promovidos
a cada semestre), todas as demais dependem do mérito,
bem como da articulação política do diplomata.
Nem todo diplomata chega a Embaixador. Cada vez mais, a competição
na carreira é intensa e muitos ficam no meio do caminho.
Mas, não se preocupem e também não se
iludam: a felicidade não está no fim, mas ao
longo do caminho!
DIRECIONAMENTO
DA CARREIRA
Um questionamento freqüente diz respeito à possibilidade
de direcionamento da carreira para áreas específicas.
É possível, sim, direcionar uma carreira para
um tema (digamos, comércio internacional, direitos
humanos, meio ambiente etc.) ou mesmo para uma região
do mundo (como a Ásia, as Américas ou a África,
por exemplo), mas isso não é um direito garantido
e poderá não ser sempre possível. É
preciso ter em mente que a carreira diplomática envolve
aspectos políticos, econômicos e administrativos,
e que existem funções a serem desempenhadas
em postos multilaterais e bilaterais em todo o mundo, e não
só nos países mais “interessantes”.
Diplomatas estão envolvidos em todas essas variantes
e, ao longo de uma carreira, ainda que seja possível
uma certa especialização, é provável
que o diplomata, em algum momento, atue em áreas distintas
daquela em que gostaria de se concentrar.
ASPECTOS PRÁTICOS
E PESSOAIS
É claro que a vida é muito mais que promoções
e remoções, e é inevitável que
o candidato queira saber mais sobre a carreira que o papel
do diplomata. Todos precisamos cuidar do nosso dinheiro, da
saúde, da família, dos nossos interesses pessoais.
Eu tentarei trazem um pouco de luz sobre esses aspectos.
DINHEIRO
Comecemos pelo dinheiro, que é assunto que interessa
a todos. Em termos absolutos, os diplomatas ganham mais quando
estão no exterior do que quando estão em Brasília.
O salário no exterior, no entanto, é ajustado
em função do custo de vida local, que é
freqüentemente maior que no Brasil. Ou seja, ganha-se
mais, mas gasta-se mais. Se o diplomata conseguirá
ou não economizar dependerá i) do salário
específico do Posto , ii) do custo de vida local, iii)
do câmbio entre a moeda local e o dólar, iv)
do fato de ele ter ou não um ou mais filhos na escola
e, principalmente, v) de sua propensão ao consumo.
Aqui, não há regra geral. No Brasil, os salários
têm sofrido um constante desgaste, especialmente em
comparação com outras carreiras do Governo Federal,
freqüentemente obrigando o diplomata a economizar no
exterior para gastar em Brasília, se quiser manter
seu padrão de vida. Os diplomatas, enfim, levam uma
vida de classe média alta, e a certeza de que não
se ficará rico de verdade é compensada pela
estabilidade do emprego (que não é de se desprezar,
nos dias de hoje) e pela expectativa de que seus filhos (quando
for o caso) terão uma boa educação, mesmo
para padrões internacionais.
SAÚDE
Os diplomatas têm um seguro de saúde internacional
que, como não poderia deixar de ser, tem vantagens
e desvantagens. O lado bom é que ele cobre consultas
com o médico de sua escolha, mesmo que seja um centro
de excelência internacional. O lado ruim é que,
na maioria das vezes, é preciso fazer o desembolso
(até um teto determinado) para depois ser reembolsado,
geralmente em 80% do valor, o que obriga o diplomata a manter
uma reserva financeira de segurança.
FAMÍLIA : O CÔNJUGE
Eu mencionei, entre as coisas não tão boas da
carreira, “dificuldades no equacionamento da vida familiar”.
A primeira dificuldade é o que fará o seu cônjuge
(quando for o caso) quando vocês se mudarem para Brasília
e, principalmente, quando forem para o exterior. Num mundo
em que as famílias dependem, cada vez mais, de dois
salários, equacionar a carreira do cônjuge é
um problema recorrente. Ao contrário de certos países
desenvolvidos, o Itamaraty não adota a política
de empregar ou pagar salários a cônjuges de diplomatas.
Na prática, cada um se vira como pode. Em alguns países
é possível trabalhar. Fazer um mestrado ou doutorado
é uma opção. Ter filhos é outra...
Mais uma vez, não há regra geral, e cada caso
é um caso.
O equacionamento da carreira do cônjuge costuma afetar
principalmente – mas não apenas – as mulheres,
já que, por motivos culturais, é mais comum
o a mulher desistir de sua carreira para seguir o marido que
o contrário.
CASAMENTO ENTRE
DIPLOMATAS
Os casamentos entre diplomatas não são raros.
É uma situação que tem a vantagem de
que ambos têm uma carreira e o casal tem dois salários.
A desvantagem é a dificuldade adicional em conseguir
que ambos sejam removidos para o mesmo Posto no exterior.
A questão não é que o Ministério
vá separar esses casais, mas que se pode levar mais
tempo para conseguir duas vagas num mesmo Posto. Antigamente,
eram freqüentes os casos em que as mulheres interrompiam
temporariamente suas carreiras para acompanhar os maridos.
Hoje em dia, essa situação é exceção,
não a regra.
FILHOS
Não posso falar com conhecimento de causa sobre filhos,
mas vejo o quanto meus colegas se desdobram para dar-lhes
uma boa educação. Uma questão central
é a escolha da escola dos filhos, no Brasil e no exterior.
No Brasil, a escola será normalmente brasileira, com
ensino de idiomas, mas poderá ser a americana ou a
francesa, que mantém o mesmo currículo e os
mesmos períodos escolares em quase todo o mundo. No
exterior, as escolas americana e francesa são as opções
mais freqüentes, podendo-se optar por outras escolas
locais, dependendo do idioma. Outra questão, já
mencionada, é o custo da escola. Atualmente, não
existe auxílio-educação para filhos de
diplomatas ou de outros Servidores do Serviço Exterior
brasileiro, e o dinheiro da escola deve sair do próprio
bolso do servidor.
CÉSAR AUGUSTO VERMIGLIO BONAMIGO - Diplomata. Engenheiro
Eletrônico formado pela UNICAMP. Pós-graduado
em Administração de Empresas pela FGV-SP. Programa
de Formação e Aperfeiçoamento - I (PROFA
- I) do Instituto Rio Branco, 2000/2002. No Ministério
das Relações Exteriores atuou no DIC - Divisão
de Informação Comercial (DIC), 2002; no DNI
- Departamento de Negociações Internacionais,
2003 e atualmente trabalha no DUEX - Divisão de União
Européia e Negociações Extra-Regionais.
Rua Álvaro
de Carvalho, 48, 4º andar, Centro, São Paulo - Próximo ao Metrô
Anhangabaú
|